terça-feira, 12 de agosto de 2014

Lá estava o menino. Ele estava ali, sentado no cantinho, tentando acertar quantas joaninhas pousaram na parede. Ele não queria ouvir. Eram gritos muito altos. Aquele som o acompanhava fazia tempo, e ele só queria um pouco de silêncio. Um silêncio em que coubesse sua voz de menino, seus medos de menino. “Por que falam tão alto?”, pergunta o menino para si mesmo. E uma voz generosa responde dentro daquele coraçãozinho: “É que eles estão distantes demais para ouvirem um ao outro.” Um pouco espantado, e encucado, o menino questiona: “Longe? Como longe? Eles estão pertinho, lá na sala de TV!”. E a voz paciente esclarece: “Seus corações, meu menino, esses sim estão muito longe. É preciso gritar para ser ouvido”. Sem saber muito bem como, o menino entende exatamente o que aquela voz quis dizer, e tudo faz mais sentido agora. Inquieto, ele olha em volta, passa os olhos devagar pelos espaços, como quem procura. Se abaixa diante da porta do quarto do irmão mais velho, e dá uma olhadela por debaixo da porta. “João tá de brincadeira comigo, só pode!”, ele se convence. “Não é o João, meu menino”, se manifesta a voz dentro dos seus ouvidos. “Sou Eu. Seu melhor amigo. Fique sossegado. Eu estou aqui”. “Meu melhor amigo? O Pedrinho tá na casa da vó dele!” Então a voz mansa sorri levemente, e ajuda: “Eu ouvi sua oração enquanto contava as joaninhas na parede. Eu te ouço todas as noites. Sei que as brigas te amedrontam, e que você pensa que seus choros não são ouvidos por ninguém. Mas eu te ouço, criança. Eu te sigo por onde vai, recolho suas lágrimas, alivio suas dores, escuto suas preces...”. “Escuta mesmo? Duvido! Escuta nada! Eles ainda brigam todos os dias e parece que só piora! E eu fico aqui, sozinho!” E mais uma lágrima desce daqueles olhinhos sofridos. “Oh meu menino... há tanto para entender... e você é apenas uma criança. Eu quero abrir os olhos do seu pai. Quero mesmo. Quero fazê-lo entender que a bebida faz mal demais a ele, e que o trabalho enobrece. Sua mãe também chora quando você está dormindo, e me pede força. O que ela não entende é que eu só posso agir através dela mesma. Ela precisa agarrar a força que eu ofereço e tirar vocês daqui até que seu pai melhore. Mas ela também tem muitos medos. Você entende?”. Os olhos do menino estão arregalados. Como aquela voz pode saber tanto sobre ele, seus pais, suas lutas? Como ele sabe que seus dias são chorosos, e que sua família está por um fio? A luz acende. É sua mãe. Ela se abaixa, olha para seu menino. Seus olhos estão marejados. Mas há tanta ternura neles... Ela veio dizer que o jantar está pronto. “Vem almoçar, meu amor! A mamãe fez sobremesa!”

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